Porque os Estados Unidos ainda Exportam Algodão?
    Esse é o tipo de questão que economistas como Pietra Rivoli, autora de “As Viagens de uma Camiseta em uma Economia Globalizada”, gostam de perguntar. Intrigada quando um protestante anti-globalização perguntou a ela “Quem fez a sua camiseta?”, Rivoli decidiu descobrir. Após comprar uma camiseta em uma rua de Fort Lauderdale, ela rastreou a origem do item de uma plantação de algodão no Texas a uma fábrica em Shangai a uma impressora de camisetas em Miami - e imaginou que seu provável destino eventual seja uma fábrica de reciclagem têxtil no Brooklyn ou um mercado de roupas usadas na Tanzânia. Enquanto não foi um choque descobrir que a camiseta foi confeccionada por uma mulher ganhando 100 dólares por mês, foi uma surpresa para Rivoli descobrir que o algodão da camiseta foi cultivado nos EUA.
    É usualmente uma má ideia basear nossa economia na exportação de commodities. Economias desenvolvidas podem construir fábricas, importar materiais crus e exportar bens manufaturados - que são vendidos por preços mais altos e não são tão suscetíveis a flutuações de preços. A Costa do Marfim exporta cacau para a Suíça, que exporta chocolate de alto valor para o mundo. As nações altamente desenvolvidas tendem a exportar bens de alto valor, porque os custos do trabalho e da produção dos bens é igualmente muito alto.
    Frequentemente, as nações ricas desenham e publicizam produtos, mas terceirizam sua manufatura a nações menos desenvolvidas. É difícil para as fábricas americanas ter lucro confeccionando jeans, desta forma a Gap desenha a linha do próximo ano e então paga os trabalhadores das fábricas do Lesotho para confeccionar seus jeans.
    O algodão é um commodity que está sujeito a flutuações notórias de preço. É também altamente dependente de mão-de-obra laboral para colher e arriscado de se cultivar, porque o mau tempo pode destruir a plantação facilmente. Países que exportam um monte de algodão geralmente o fazem porque não tem um grande setor industrial (Mali, Uzbesquistão) ou porque possuem uma grande população de fazendeiros rurais pobres (Paquistão, Índia, China).
    Mas nenhuma dessas razões contam para que os Estados Unidos sejam o maior exportados mundial de algodão. Duas outras razões sim: tecnologia e subsídios. Os Estados Unidos tem sido o líder na produção de algodão por 200 anos, primeiramente usando escravos, então plantadores cooperativados como uma forma estável de trabalhadores de baixo-custo. Na ausência deste trabalho barato,  os fazendeiros nos Estados Unidos tiveram que desenvolver uma tecnologia sofisticada, com ampla ajuda de universidades agrícolas suportadas pelo governo. A tecnologia permitiu a eles colheitas gigantescas com a ajuda de uma pequena força de trabalho humano, e transformou o algodão em uma commodity lucrativa.
    Mas a maior vantagem que os fazendeiros americanos de algodão tem é um governo cooperativo. Os Estados Unidos param aproximadamente 4 bilhões de dólares por ano a 25 mil fazendeiros americanos, através de um grupo de subsídios, garantias de preço e políticas de seguros. Um subsídio garante aos fazendeiros um mínimo de 72,24 centavos por cada 456 gramas de algodão. Pelo fato do preço mundial do algodão em 2004 ser 38 centavos, os pagadores de impostos americanos pagaram aos fazendeiros do algodão uma bruta soma em dinheiro. Mas o povo americano pagou aos fazendeiros muito mais dinheiro, graças a leis que exigem das fábricas de roupas americanas que comprem um certo percentual de seu algodão de plantadores americanos. E, apenas para garantir que os fazendeiros do algodão não tenham seu sono prejudicado, outros programas para compensar os fazendeiros por perdas naturais associadas ao mau tempo estendem a eles crédito e os ajudam a desenvolver mais tecnologias.
    Agricultura de alta tecnologia e suporte governamental torna o algodão americano mais competitivo do que normalmente seria. Pelo fato dos EUA exportarem tanto algodão barato, o preço global do algodão permanece baixo. Em seu livro, Rivoli aponta para uma série de estudos sugerindo que os subsídios americanos deprimem os preços globais do algodão de 3 a 15%. Consequentemente, os fazendeiros nos países em desenvolvimento precisam vender sua produção a preços mais baixos, fazendo menos dinheiro e piorando sua qualidade de vida. Quando os líderes africanos dizem que querem um comércio mais justo, não mais ajudas humanitárias, eles estão falando sobre o algodão: o subsídio anual do governo americano ao algodão é aproximadamente três vezes maior do que a quantidade que a Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional deu para a África em ajuda humanitária em 2004.
 
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